sexta-feira, novembro 23, 2007

O som ecoou a pelo menos dois quarteirões, o povo curioso atiçou os olhos e os ouvidos, o corpo de bombeiro acionado, gritos abafados, lágrimas e pontos de interrogação se elevando acima dos sonhos. A multidão se adensou ao redor do chão tingido de vermelho, cada um queria levar para casa a morte, contrastar no olho a verdade de estar vivo... Algum tempo depois os jornais anunciavam: Suicídio! Um homem pulou da cobertura do prédio onde morava, “mas o mais curioso não é isso” a verdade é que o suicida manteve os olhos abertos enquanto caia, como se quisesse captar o mundo pela última vez, guardar para sempre a memória máxima da vida: a própria morte.

Naquele dia, naquele fatídico dia, o suicida acordou seis horas da manhã, coou seu café, tomou seu leite; limpou o rosto, abriu o guarda roupas, cheirou as próprias axilas e as besuntou de desodorante; Escolheu um terno, amarrou o cadarço, respirou fundo, abriu a porta, resgatou o maço de cigarros, fechou a porta, trancou-a; cumprimentou a primeira vizinha e o cachorro do apartamento ao lado, chamou o elevador, tomou a rua, caminhou resoluto até a esquina, virou, virou, andou... Cumprimentou quem devia cumprimentar e sentou-se no lugar onde me encontro, ele sabia de tudo que havia de acontecer, ele sentia e compreendia. Ele esperou por isso durante muito tempo, era o dia mais importante da sua vida, por isso nada poderia dar errado, era o dia mais planejado, esteve impregnado na sua pele desde que era um garotinho de calça azul.

O dia caminhou e arrastou os ponteiros do relógio com ele, papeis voaram de mesa em mesa de escritório, as nuvens andaram, caminharam, correram e desapareceram, o vermelho que antecede a noite gritou seu dom... E os pés fizeram seu trajeto, o elevador foi acionado, a cobertura foi compreendida e no ápice da sua vida o suicida sorriu, abriu os braços, piscou uma vez e saltou, saltou com os olhos abertos, olhos de águia que a tudo deve perceber...

Ela ajustou a lente, observou a torre, e no momento em que apertou o botão captou mais do que previa, um homem arqueado como pássaro, expressão de êxtase caindo do décimo quinto andar, de olhos abertos, arregalados para o mundo... Um suicida feliz!

14 comentários:

Dezinha disse...

Deu medo

bj

Anônimo disse...

Use a experiência do suicida, mas não para morrer, abra os olhos pra perceber ainda mais a vida. A vida que você celebra hoje.

Anônimo disse...

Tipo...
eu adorei! é triste, mas eu adorei!!! Gostei muito dessa parte aki, ó: "multidão se adensou ao redor do chão tingido de vermelho, cada um queria levar para casa a morte, contrastar no olho a verdade de estar vivo..."
EXCELENTE!!! Vou chamar a Vera petista pra vc, hein? hauahuahua
Uma bitokinha na pontinha do nariz...

CresceNet disse...

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isabella disse...

Muito bom
A descrição da rotina e a simplicidade das palavras parecem justificar o ato por qual ele tanto desejava. É um texto diferente dos quais eu já li sobre suicídio pois não há um motivo... não me causou pena pelo q ele fez...pareceu ser um momento d libertaçao... d alivio "imediato"

Jackie disse...

Vontade de olhar nos olhos dele, sentir a emoção do momento. Você tem a foto? Quero ver.. hehehe..

Larissa disse...

Nossa, gostei muito. Bem diferente das histórias de suicídio. Planejar desde menino o momento mais feliz de sua vida, a morte.
É preciso coragem. Gostei dele!

o/

Sydnei Melo disse...

A escrita é muito boa. Coisas simples que me fariam pensar... o contrário.

O suicidio pra mim nunca (e não passará pela minha cabeça jamais) que seja um fato de glória. Talvez seja mais um que saiu da vida para entrar na história.

Mas a história, nessas, é pouco perto de uma vida que, com máximas simples e dignas de uma própria dignidade, parecem merecer uma continuidade.

O suicidio sempre foi pra mim o sinal do desespero. Pelo visto, este tb pode ser inconsciente.

Dothy disse...

Saudades mesmo. ;)

A liberdade é fantástica, mas cada um sabe o que ela significa pra si.

Lisa Alves disse...

"E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...


E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar..." Ismália - A. G.


Retribuindo tua visita e surpreendida com o texto. Me lembrou o simbolismo de ISMÁLIA. A libertação e não a morte. Muito bom mesmo. Voltarei mais...


Lisa

Cassio Dias disse...

Só espero que não seja um diário. Mas caso for, tudo bem! Sera pleno e profundo.


Muito bom cara !

thalita disse...

eu vejo o suicidio como uma coisa triste e pesada...mas neste testiculo ficou leve e deu pra perceber que ele esta melhor agora(pelo menos eu espero).
beijoss

Sydnei Melo disse...

Todo ato de revolta talvez não seja sempre poesia.

Mas todos possuem o germe que concebe a essência.

Aldrey disse...

Perfeito.
Simplesmente perfeito.