segunda-feira, agosto 25, 2008





O País das histórias

Como toda boa história, essa aconteceu há muito tempo: aconteceu quando o mundo estava nascendo. É uma história transmitida de geração a geração, desde a época do meu mais antigo avô, que a contou para seu filho... Meu pai a narrou para mim. Ouvi essas palavras também das antigas fiandeiras e dos comerciantes das feiras. É uma história simples que todos conhecem e nem sequer se dão conta.

Aconteceu quando todo o país era um pequeno reino num imenso deserto. Naquela época nem as torres de vidro nem as árvores antigas tinham brotado, a paisagem era amarela e as pessoas ainda não conheciam as tintas coloridas. Numa manhã como outra qualquer, as pessoas notaram o primeiro sinal de um boato que, fantasiado de epidemia, se espalhou de boca em boca. Desde os sábios até os pequenos artesãos, todos falavam de um grande homem. Um conquistador de terras, um guerreiro hábil que comandava todo um mar de homens e cavalos. Diziam que tinha feito pacto com o demônio, que em troca de serviços escusos, ganhou o dom de dominar e possuir reinos inteiros.

Todos no reino temiam que um dia esse conquistador aparecesse à beira das muralhas, que obrigasse cada cidadão daquele lugar à morte na batalha, à escravidão ou á desgraça moral. Cada novo boato que surgia, anunciava que ele estava mais próximo, que os seus cavalos vasculhavam o deserto ao nosso redor. Cada conversa de esquina reduzia-se a um presságio horrível de sua chegada. Não demorou muito e o burburinho atingiu o palácio. O rei desesperado procurou as três leitoras das estrelas em busca de conhecer o futuro e elas lhe disseram que aquele senhor se aproximava, que dali a três dias entraria na cidade.

Como era hábito naquela época, o grande conquistador entraria sozinho e disfarçado na cidade, vestiria suas roupas mais humildes e verificaria o merecimento daquele reino em sobreviver ou não. O rei ordenou que listassem todos os tesouros da cidade, que preparassem um banquete e quando, dali a três, um único homem, vestido de trapos, portando o bastão do peregrino cruzou as muralhas, mandou chamá-lo no palácio e com as palavras mais doces perguntou em que poderia ser útil a tão nobre senhor. Informou que possuía pedras preciosas e óleos perfumados, que possuía as mais belas fazendas de tecidos e que tudo seria do peregrino, se assim ele quisesse.

Contam que houve um momento de pausa na conversa, e quando o grande conquistador falou, disse que era muito gentil da parte do rei. “Meu nome é Orfeu e venho de muito longe, minha jornada é árdua e tudo que te peço é um pouco de água para lavar minha garganta do deserto que se impregna em mim”.

Erguendo a mão, o rei ordenou que trouxessem a água da mais afamada fonte da região e serviu o convidado em uma taça de ouro. Durante a noite ofereceu um banquete no qual uma ponta da mesa foi ocupada pela própria majestade e a outra pelo ilustre desconhecido. A cidade quase inteira compareceu ao evento. E em gratidão a toda a hospitalidade o forasteiro ofertou histórias. Segurando sua taça de ouro narrou uma por uma todas as histórias que hoje contamos aos nossos filhos, todas as histórias que te contamos quando era um pequeno bonequinho, todas... com exceção dessa história. Essa não é uma história do forasteiro, é uma história nossa. É a história do lugar onde morremos e crescemos. É o próprio contorno da nossa alma.

Quando a saciedade ocupou o lugar da fome e da sede, e alegria inebriou as feridas da areia, o velho Orfeu levantou agradecimentos a todos: ”A hospitalidade desse lugar me emociona, mas minha viagem não termina nessas terras. Meu caminho passa por além do deserto”. Após essas palavras partiu. Nem no dia seguinte, nem em nenhum outro houve qualquer exército ameaçando nossas muralhas.

Foi assim que nossa hospitalidade se tornou famosa: foi tratando um forasteiro como um príncipe que evitamos sermos dominados pelo exército assassino.

Depois que o homem foi embora, suas histórias foram contadas a todos que não estiveram no banquete. Eram aventuras tão fascinantes que cada um se incumbiu de mais tarde narrá-las aos que nasciam, e foram estas pessoas que nasceram depois quem as transmitiram aos que vieram ao mundo nos próximos anos... Assim se repetiu de geração a geração até que as histórias se impregnaram em todas as pessoas que por aqui passaram e de cada uma delas retiraram um novo tom, um novo cheiro e fumaça. Gostávamos tanto de contar essas histórias que, com o tempo passamos a nos chamar de O Povo de Orfeu e o lugar onde nascemos, onde hoje vivemos e onde hoje te conto essa história, foi batizado de O País das Histórias. É o nosso lar, o contorno de nossa alma, o alicerce de toda a imaginação e êxtase que uma narrativa pode proporcionar. Contamos essa história como quem olha o vento passar, contamos para que saiba como você mesmo é. E principalmente, como o velho Orfeu, contamos para aliviar as feridas que o deserto impregna em nós.


7 comentários:

Ingrid Biann disse...

E como um descendente exemplar, é um ótimo contador de histórias. Me encanta a forma que conduz seus textos, é algo que não vejo em nenhum outro blog.

ps: Sempre bom ler os comentários que deixa no meu blog, fazem diferença. ;)

Anônimo disse...

A história é tudo que tenho e somente o que vai perdurar. É o peso nas minhas costas, e partilhá-la ajuda a aliviar a dor...

Jana Cambuí disse...

Bonita estória. Senti-me numa roda de contos antigos, aprecio esse tipo de leitura. "A Torre do Leste" tem esse clima, desde o título. Quase pude ouvir o vento que sopra forte de cima da torre.
Com certeza voltarei mais vezes.

E obrigada pelo comentário lá no Infinito.

Elton Rosa disse...

gostei... Mas poderia te dá uma dica? nesse caso a palavra correta é ESTORIA e não História, História eh quando eh uma verdade no caso de contos usa-se a palavra com "E"
mas gostei muito mesmo da Estória

Elton Rosa disse...

entendi

TTonelli disse...

Compraria um livro seu...
=) Muito bom, grande MP!

Tiago Tonelli disse...

"Sinto cheiro de bolo, alguém toma café do meu lado enquanto eu mexo o leite com Nescau. É tudo tão claro, tem luz de sol e reflexo de céu azul. Tudo isso me dá vontade de soprar dente de leão."

Seu comentário me fez sorrir. Um sorriso tranquilo que estes pesados dias teimam em proibir. Obrigado, meu caro. Acho que é hora de um lanchinho... em Minas, dois mineiros tomam café observando a bagunça das maritacas numa... (continuo depois). Aceita um café?