sábado, fevereiro 16, 2008

Houve um tempo em que todos os homens e mulheres eram diferentes, cada um carregava a sagrada singularidade que o fazia mais que um ponto de uma constelação.

Essas diferenças faziam dos humanos a humanidade, cada rosto vangloriava-se com o exótico, com o único e singular que havia no outro. A diferença era tão brilhante que unia todos como uma imensa colcha de retalhos onde a linha mesclava-se a cores e sensações.

Do mais árido deserto eis que então surgiu rastejante o espectro da serpente, enrolando-se e engolindo o próprio corpo mostrou que havia o igual, a unidade e a uniformidade. O homem viu a igualdade e essa envenenou o mundo, de dois em dois, três em três os homens deram as mãos, mascararam-se, perderam o brilho que antes os fascinava. O diferente foi assassinado... E ninguém foi punido.
A voz do mundo minguou pouco a pouco, ergueram-se barreiras entre os seres, feitas da mesma substância que antes os unia, que antes costurava as colchas de retalho. Ergueram-se estandartes de cores variadas, todos invisíveis, içados em lanças afiadas, mais altos que qualquer pensamento.

...e os homens não perceberam o que acontecia...

Esse mundo tinha, há muito tempo, enviado um homem ao Cosmos, um astronauta que foi caçar estrelas. Quando voltou, ele não acreditou que estava no mesmo mundo que deixou. Estava tudo... Igual. Mandaram que sua voz silenciasse! ORDENARAM QUE ELE NÃO FOSSE ÚNICO, que vendesse A ALMA, que mutilasse seu corpo, que estraçalhasse seu demônio e ele, desesperado, se afastou dos homens.

Procurou a caverna mais distante, mais sombria e com as mãos tampando os ouvidos, com os joelhos entre os cotovelos adormeceu. Teve pesadelos sombrios, frios, úmidos enquanto no mundo lá fora as pessoas o julgavam, se debatiam para saber qual cor ele tinha, qual era o ódio que o afastava, qual era o veneno que ele destilava.

Apenas uma menina o procurou, talvez por não ser propriamente desse mundo, ela era um ser misto, misto de espírito e gente, carregava as asas da leveza mas estava trancafiada em carne. Ela o encontrou e perguntou mais do que afirmou: teceu uma resposta!

Porém ela, pobre ela, era mais carne que leveza e logo desacreditou das palavras que ouvira, esqueceu-as e quando voltou para o mundo vestiu-se de uma única cor, colou-se abaixo de um estandarte.

O tempo foi apagando a memória do povo, não mais debatiam os motivos do astronauta, não mais lembravam-se dele, e ele não tinha povo. Nessa história perdera os irmãos e quando finalmente saiu da caverna, estava só.

Tão só quanto qualquer um que não se encaixava em cores, que não vivia sob um estandarte.
Tão só quanto era possível.

O impossível era mais além, tão além que as serpentes que envenenaram o diferente nunca encontraram e nunca ninguém encontraria, estaria por toda eternidade guardado por querubins e espadas flamejantes, longe de todo olho humano, longe de toda semelhança.

4 comentários:

isabella disse...

é triste perceber q isso é verdade

Jacqueline disse...

é sábio ver que existem várias verdades. (diferenças).
A minha visão não era essa. Pretendo compreender.

thaly_cunha disse...

isso dói.

LIsa Alves disse...

atrás de um muro sempre terá outro muro... Que texto magnifico. Reflexoes: Em qual caverna eu me perdi?